
Créditos
Foto: Hong Zhang, Wikimedia Commons, CC0
Chakras: o que são, de onde vêm e o que diz a ciência
O que são os chakras, como nasceram nos textos tântricos da Índia, de onde vêm as sete cores ocidentais e o que a ciência estudou.
Cultura e ideias: de onde vem uma crença e o que a ciência diz sobre ela. Não é aconselhamento de saúde.
Nesta página
Nas tradições tântricas hindus e budistas, os chakras são centros de um «corpo subtil», imaginados ao longo da coluna, da base até ao alto da cabeça. A palavra sânscrita cakra quer dizer «roda». Para os entender é preciso contar duas histórias: a dos textos indianos medievais e a da versão ocidental, com sete cores, que hoje é a mais conhecida.
O que são os chakras para quem os pratica?
São pontos de concentração num corpo subtil, ligados por canais (nadis) por onde circularia o sopro vital (prana). Não são órgãos: são lugares onde o praticante fixa a atenção, visualiza formas e sílabas sagradas e recita mantras. Em várias escolas tântricas, uma força enrolada na base da coluna, a kundalini, sobe de chakra em chakra até ao alto da cabeça.
De onde vêm os chakras?
Vêm de textos tântricos da Índia medieval, embora a palavra seja muito mais antiga. Nos Vedas, cakra é a roda, por exemplo a do soberano que «faz girar a roda» do seu reino. Segundo o indólogo David Gordon White, hierarquias de centros interiores surgem por volta do século VIII, em textos budistas como o Hevajra Tantra, que falam de apenas quatro. Os textos hindus variam muito: cinco, seis, oito chakras ou mais.

Créditos
Foto: Joydeep, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0, adaptada
Os estudiosos não concordam em tudo. Georg Feuerstein via referências a estes centros já nas primeiras Upanixades; White e Gavin Flood situam-nos na Idade Média. Para Flood, o sistema de seis chakras mais o centro do alto da cabeça aparece pela primeira vez no Kubjikāmata-tantra, uma obra do século XI.
Como chegaram ao Ocidente?
Em várias camadas, segundo o historiador Kurt Leland, que escreveu sobre o tema para a Sociedade Teosófica na América:
- Década de 1880: Helena Blavatsky e outros teosofistas falam de sete chakras e associam cada um a um plexo nervoso.
- 1919: Sir John Woodroffe, com o pseudónimo Arthur Avalon, publica The Serpent Power, a primeira edição erudita em inglês de um destes sistemas. Traduz o Ṣaṭ-cakra-nirūpaṇa («Exame dos seis chakras»), escrito por Pūrṇānanda em 1577.
- Décadas de 1920 a 1980: os chakras são associados às glândulas endócrinas; o clarividente Charles W. Leadbeater publica The Chakras (1927), com ilustrações a cores; no Instituto Esalen, na Califórnia, forma-se a lista de qualidades psicológicas que hoje se repete; nos anos 1980, autoras como Anodea Judith juntam tudo em manuais.
Leland conclui que o sistema ocidental resultou de uma «colaboração involuntária» entre teosofistas, indólogos, psicólogos e terapeutas energéticos.
Os 7 chakras do sistema ocidental
No sistema mais divulgado hoje, os sete chakras são, de baixo para cima:
- Muladhara, a raiz, na base da coluna.
- Svadhisthana, o sacro, no baixo-ventre.
- Manipura, o plexo solar, à altura do umbigo.
- Anahata, o coração.
- Vishuddha, a garganta.
- Ajna, na testa, o chamado «terceiro olho».
- Sahasrara, a coroa, no alto da cabeça. Nos textos clássicos, este lótus é muitas vezes tratado como um centro à parte, não como um chakra.
As cores seguem a ordem do arco-íris, do vermelho na raiz ao violeta na coroa, e cada chakra recebe uma lista de qualidades psicológicas, que varia de livro para livro. Nada disto vem dos textos indianos: as cores são modernas. Quem as fixou primeiro é discutido. A Wikipédia atribui as sete cores a Leadbeater, em 1927; Leland escreve que as cores do arco-íris e a lista de qualidades só aparecem juntas em 1977, no livro Bodymind, de Ken Dychtwald.
Quantos chakras existem?
Depende da tradição. Os textos budistas medievais falam de quatro ou cinco, os hindus de cinco a oito ou mais, e o sistema de sete é o mais conhecido porque foi esse que chegou ao Ocidente.

Créditos
Foto: Ms Sarah Welch, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0, adaptada
Chakras desalinhados ou bloqueados: o que quer dizer?
É uma ideia das terapias energéticas modernas, sem equivalente médico. Para quem a usa, um chakra «bloqueado» seria um centro onde a energia não circula bem, ligado às emoções do seu tema. Não é um diagnóstico: não há exame que o detete, e sintomas físicos que persistem pedem um médico.
Como se usam hoje: ioga, meditação e reiki
Os chakras servem sobretudo de mapa para a atenção: visualizar uma cor num ponto do corpo, respirar, entoar um som. Aparecem muito no ioga moderno, mas o estudioso Edwin Bryant nota que, no ioga clássico de Patañjali, a fisiologia dos chakras é periférica. No reiki, uma prática de toque leve sobre ou junto do corpo, muitos praticantes trabalham com o mesmo mapa.
Os chakras existem mesmo? O que diz a ciência
Não há prova científica de que existam como estruturas físicas, nem forma estabelecida de os medir. A anatomia conhece plexos nervosos e glândulas em zonas próximas, e essa coincidência foi usada para os explicar desde as décadas de 1880 e 1920; mas a ligação foi proposta por autores ocidentais, não encontrada no corpo.
Também não encontrámos ensaios controlados que testem os chakras em si. O que se estuda são as práticas. Uma revisão Cochrane de 2015 sobre o reiki na ansiedade e na depressão encontrou apenas três estudos, pequenos e com risco de enviesamento, e concluiu que não havia provas suficientes para dizer se ajuda ou não.
Para muitos praticantes, os chakras são uma linguagem simbólica com séculos de história, usada para orientar a atenção, e é nesse plano que se podem apreciar. Para experimentar uma prática simples: Como meditar para acalmar a mente. Sobre a linguagem da «energia» e da «vibração»: «Frequência vibracional»: de onde vem a ideia e o que diz a ciência.



